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Vulnerabilidade

Há alguns meses atrás, eu chegava junto com uma equipe missionária dos Estados Unidos, na região do Arapiuns. Nosso papel ali era construir a primeira Igreja Evangélica do local - ou pelo menos, ajudar em parte do processo de construção. Foi a primeira vez, em anos que meu objetivo primário em uma comunidade ribeirinha não era atenção em saúde. Ou, assim eu pensava. A fundação já estava pronta, então nosso papel, no primeiro dia, foi carregar as telhas para próximo do prédio, depois limpar o local, carregando as estacas de madeira que haviam sido usadas de apoio para subir a alvenaria e então carregar areia para a base do concreto. Começamos por volta das sete da manhã com o sol equatorial nos cumprimentando com sua mais acalorada saudação e terminamos às cinco, com saudações inacabadas e um bom rio a nossa frente para levar embora todo o cansaço. Esse foi o primeiro dia, e foi bom.

O segundo foi bom, de forma semelhante, mas é quando você geralmente começa a notar os detalhes que passaram despercebidos e a euforia causada pelo novo abre espaço para o costumeiro e habitual. Começamos os trabalhos no mesmo horário, e dávamos uma pausa às nove, para um lanche. Mesa farta, cookies deliciosos, sucos incomparáveis e canudinhos-filtro de água. Às doze, íamos almoçar e às quinze comiamos o lanche da tarde, e no meio tempo trabalhávamos. Era uma pausa necessária para que nossa equipe não definhasse sob um clima novo e desafiador. Enquanto isso, os trabalhadores locais, subiam no prédio, manipulavam estacas que deveriam pesar algo por volta de cem quilos, lançavam cordas e batiam cimento, incansáveis.

Foi em uma dessas pausas que pude conhecer os membros daquela equipe e notar que a maior parte deles era formada por profissionais da saúde: enfermeiros, ultrassonografistas, médicos, fisioterapeutas. Deus provêra uma forte ferramenta de evangelismo e transformação social e eu só não veria se não quisesse. Todos animados para visitar as casas e levar um pouco de saúde e palavra, liderados por meu amigo, médico formado, e guiados por duas moradoras, nos dividimos em times e saímos comunidade a dentro. Os caminhos tortuosos da comunidade oscilavam entre o verde das mangueiras e murucizeiros, o frescor do rio e alguns poucos caminhos de terra arrasada. Ali, debaixo daquelas árvores, o sol vilanesco não nos afligia mais do que por alguns fracos raios de luz escapando pelas frestas de folhas balançando ao vento.

Na primeira casa que visitamos, encontramos dona Cecília balançando seu filho, Flávio, um garoto de cinco anos com olhos mais escuros que a própria noite. Como em todo primeiro contato, estávamos tímidos, com o velho olhar de não quero incomodar estampado no rosto. Dona Cecília abriu a porta e disse um caloroso “entrem, entrem, por favor, não incomodem com a bagunça” - estava tudo arrumado na verdade, mas acho que é o jargão comum. Dissemos que estávamos alí com uma equipe de saúde e queríamos ver se ela precisava de alguma coisa. Era para ser uma conversa apenas sobre dor de cabeça, mas saímos dali conhecendo a história de uma senhora valente, cuidando de seu filho, que nascera com hipóxia e hoje tinha um certo atraso no desenvolvimento neuropsicomotor. Alí, com uma fé inabalável, ela nos contou de como o filho crescerá e era a felicidade dela e que a qualquer momento ela cria que Flávio começaria a falar. Contou que o marido estava do outro lado do rio, pescando para prover para a família. Contou que os irmão a ajudava quando precisava. Contou que ia para a igreja aos domingos.

Contou que seu único problema era a dor de cabeça que começava no pescoço. Oramos, médicos e fizemos algumas massagens, após isso, ela disse que melhorou. Alguns dias depois, passamos pela casa dela, em visita evangelística e ela nos recebeu com o mesmo sorriso.

Em outra visita, conhecemos o seu Frederico. Estávamos evangelizando na casa da dona Rosa. O filho dela havia acabado de chegar com a caça do dia e estávamos todos ainda maravilhados com a Paca que ele havia acabado de pegar, quando o seu Frederico chegou descendo um pequeno morro de barro, sentou no banco e falou “fala mais alto, porque eu tive um derrame na cabeça e agora estou surdo de um ouvido”. Devo dizer que foi uma anamnese difícil de ser feita, porque os fatos não me pareciam moldar-se a história e eu achava que isso estava relacionado a audição e a dificuldade de entendimento das minhas perguntas. Ele sofrera um AVC alguns anos atrás, resultando em uma espasticidade na perna esquerda. Ainda assim, descera sozinho um morro para conversar conosco. Os familiares contam que não raro, ele se embrenha pela mata a fim para chegar até as outras casas. Houve ali, uma adaptação tão feroz que, mesmo com uma espasticidade proeminente, nada segurou aquele senhor ribeirinho.

Na volta ao barco, formava-se um belo por-do-sol. Havia um tom metálico de azul e amarelo no céu e ao longe, eu pude ouvir o som de risos e a água. Algumas crianças se aglomeraram ao redor do barco e brincavam de pular na água. Havia calmaria no ar. Um peso quase nostálgico. Eu venho do rio Amazonas, mas ali, no Arapiuns, afluente do Tapajós, me senti em casa. Acolhido por uma tarde ouvindo gargalhadas semelhantes a de meus amigos, brincando lá fora. As casas de madeira, os trejeitos de fala, a pele enrugada, o verde, tudo reverbera dentro de mim como familiar. Uma vida crescendo, maturando em meio a amor, bem alí, ao meu lado. Uma vida, com suas particularidades, mas semelhante a minha.

Hoje, vivendo em São Paulo, e trabalhando com voluntariado em saúde para essas comunidades, não é raro ouvir que devemos ajudá-las por conta de sua vulnerabilidade e pobreza. E, eu não consigo, senão rejeitar essa caracterização única, essa redução de minha família. Porque sim, encontramos adversidades em nossos encontros e a falta de médicos e acesso à atenção básica de saúde é uma das mais proeminentes delas. E de forma alguma, quero romantizar essa escassez e minimizar a luta por direitos intrínsecos. Digo apenas que a vida existe e continuará a existir apesar disso. Digo que a vida não se resume a um conceito ocidental de saúde e riqueza. Porque, quando eu penso na dona Cecília, eu penso na gentileza dela em nos receber, no marido dela, longe da família pescando e se sacrificando por eles, na sua fé e na organização de sua casa. Quando penso no seu Frederico, penso em um senhor de quase noventa anos que não consegue ficar parado, sem se importar com as barreiras ambientais que possam existir. Quando penso nas comunidades ribeirinhas, penso, em parte, na minha casa, lembro dos risos, do amor, das festas locais, das frutas, do rio, das estrelas e de um belo pôr-do-sol.


 
 
 

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